“O pelotão já viu que Juan Ayuso faz o que quer” lenda do ciclismo analisa a polêmica saída do espanhol da UAE Emirates
Juan Ayuso não conseguiu concluir o Giro d’Italia, após enfrentar problemas físicos e a rivalidade crescente com o colega de UAE Emirates, Isaac del Toro. Fora do Tour de France, o espanhol reencontrou parte de sua melhor forma na Vuelta a España, onde conquistou duas etapas e deixou boas impressões.
Apesar disso, Ayuso está de saída da UAE Team Emirates-XRG para reforçar a Lidl-Trek, e a sensação é de que sua ausência não será tão sentida dentro da equipe de Tadej Pogacar.
Quem analisou a situação foi a lenda do ciclismo italiano, Giuseppe Saronni, bicampeão do Giro e campeão mundial em 1982, acumulando 144 vitórias na carreira, em entrevista ao canal italiano Bici.Pro.

“Ayuso nunca se conectou de verdade com os companheiros de equipe”
O anúncio de sua mudança, feito pela própria UAE Emirates, durante a disputa da Vuelta a España, gerou grande repercussão e expôs ainda mais as dificuldades no relacionamento entre o espanhol e o time.
“Ayuso é um ciclista com bom potencial, isso já era sabido; ele está no topo há alguns anos. Acho que o problema fundamental é que ele nunca se conectou de verdade com os companheiros de equipe”, iniciou Giuseppe Saronni.
“Você precisa obedecer a certas regras, certas hierarquias”
Segundo Saronni, a UAE Team Emirates não conseguiu suportar por muito tempo essa atmosfera negativa: “Em uma equipe como a UAE, você tem deveres e papéis que devem ser respeitados, especialmente quando se trata de companheiros de tamanha importância”.
“Às vezes você não pode simplesmente fazer o que quer, precisa obedecer a certas regras, certas hierarquias. Na minha opinião, isso colidiu um pouco com a exuberância juvenil e com as necessidades de alguns dos ciclistas do time.”

“O pelotão já viu que esse garoto, às vezes, faz o que quer”
Ayuso nunca foi unanimidade dentro do grupo. Para Saronni, isso já foi percebido dentro do pelotão: “Enquanto correm, os ciclistas veem e sabem, eles veem comportamentos, veem muitas coisas mais do que nós, observando de fora”.
“Os outros ciclistas também sabem sobre esse caráter. Os ciclistas do pelotão já viram que esse garoto, às vezes, faz o que quer um pouco demais. Talento é algo inquestionável, mas se você é jovem, você tem que entender, avaliar, melhorar e crescer. Eu digo que ele definitivamente fará isso.”

“Ele desperdiçou a confiança nele depositada”
Ayuso demonstrou seu descontentamento por meio da mídia e das redes sociais logo após a confirmação da saída, mas Saronni acredita que a decisão foi benéfica para ambas as partes: “Foi uma espécie de libertação para todos, e por isso ele saiu mais cedo do que o esperado”.
“A UAE Emirates tem muitos ciclistas, além de Pogacar, em quem confiar. Para a equipe, Ayuso era um valor agregado, mas apenas se as coisas tivessem dado certo. Acho que ele também se beneficiaria de uma mudança de ares e encontraria novas oportunidades.”
“Na minha opinião, chega, pois me parece que ele teve um papel importante, que ele desperdiçou um pouco, arriscando a confiança nele depositada”, complementou Saronni analisando que o espanhol desperdiçou o espaço que lhe havia sido dado na UAE.

“Às vezes, a UCI cria regras bastante questionáveis”
A situação de Ayuso também reacendeu o debate sobre o regulamento da UCI que permite anunciar transferências ainda durante a temporada. “Às vezes, a UCI cria regras bastante questionáveis”.
“Sou um pouco antiquado, acreditando que um ciclista pode trocar de equipe no final do ano. Também é verdade que o ciclismo hoje tem exigências diferentes”.
“Hoje, por trás dos ciclistas, existem agentes que revolucionaram todos os relacionamentos. Sinceramente, eu preferia a regra anterior, que previa a troca de equipe no final da temporada. Era muito mais simples e clara”, finalizou Giuseppe Saronni.
