Ciclista deixa a Red Bull Bora e fala sobre os ganhos marginais “é o ciclismo moderno, acontece nas 10 melhores equipes”
Antes de se transferir da Red Bull Bora-Hansgrohe para a Lidl-Trek, o italiano Matteo Sobrero revelou bastidores de como as principais equipes do WorldTour estão levando ao limite a busca por ganhos marginais e desempenho absoluto.
Em um cenário cada vez mais tecnológico e exigente, as equipes buscam a melhora da performance, em aspectos que há pouco tempo não se imaginava e a chegada de Remco Evenepoel amplia ainda mais esta busca por desempenho.

Orçamento de 50 milhões de euros e grande estrutura
A contratação de Remco Evenepoel, marcou um novo capítulo na história da Red Bull Bora-Hansgrohe. Com um orçamento estimado em 50 milhões de euros, a equipe aposta investe forte em uma grande estrutura.
A equipe já contava com gandes nomes como Dan Bigham (Chefe de Engenharia), Peter Kloppel (Chefe de Desempenho Mental), Dan Lorang (Diretor de Treinamento) e Asker Jeukendrup (Nutrição).
Agora eles passaram a ser auxiliados por Zak Dempster, Tony Gallopin, Oliver Cookson, além dos treinadores de Evenepoel, Sven Vanthourenhout e Klaas Lodewyck.

“Essa é a filosofia do ciclismo moderno, acontece nas 10 melhores equipes”
Para Sobrero, a estrutura da equipe é um reflexo claro da direção que o ciclismo atual tomou. “Essa é a filosofia do ciclismo moderno: acompanhar os tempos e, como acontece com as melhores equipes, tentar ficar à frente deles”, afirmou o italiano em entrevista ao Bici.pro.
Ele destacou que a abordagem da Red Bull-Bora-Hansgrohe não é um caso isolado. “É muito perceptível. Mas, honestamente, e isso não é uma crítica, não é nada de novo: acontece também em outras equipes de ponta. Ou pelo menos, nas 10 melhores equipes do mundo.”

“As equipes têm quase 200 pessoas, se perde um pouco o aspecto humano”
Sobrero acrescentou ainda que o fenômeno vai além da equipe alemã. “Eu diria que isso é mais perceptível no ciclismo em geral do que apenas na Red Bull-Bora. Muitas equipes agora têm números semelhantes”.
“A Ineos Grenadiers foi a primeira a tomar medidas drásticas em relação à nutrição, e depois a Visma-Lease a Bike foi além, com Asker Jeukendrup, e as outras gradualmente seguiram o exemplo.”
Apesar de reconhecer os benefícios da profissionalização crescente, Sobrero também apontou os efeitos colaterais dessa transformação. “O bom do ciclismo é que os grandes investimentos impulsionam tudo e todos para cima, o lado negativo é que se perde um pouco o aspecto humano”, explicou.
Ele comentou que o tamanho das equipes se tornou um fator que afeta as relações pessoais: “As equipes hoje têm quase 200 pessoas: há pessoas que você vê no primeiro Training Camp em outubro e depois não vê mais pelo resto do ano.”

“Na Red Bull tudo é medido ao grama”
Sobrero também destacou o papel da nutrição como parte central dessa busca por excelência, que está sob a liderança do especialista Asker Jeukendrup.
“Nós, italianos, viemos de uma cultura alimentar que naturalmente nos leva a comer de forma equilibrada”, disse Sobrero. “Mas na Red Bull, tudo é medido ao grama.”
O italiano admitiu que esse nível de exigência tem um custo emocional. “Há ciclistas que são mais afetados por isso e outros que são menos afetados”, comentou. Para ele, o treinamento mental também é indispensável no ciclismo de elite.
“Sacrifícios são feitos para atingir o limite, mas o risco é acabar em esgotamento. Cabe ao psicólogo impedir que eles cruzem essa tênue linha entre a perfeição e a exaustão”, finalizou Matteo Sobrero.