Campeão da Milan-Sanremo defende cobrança de ingressos no ciclismo “se não seguirmos isso, todas as pequenas corridas vão acabar”
O ex-ciclista italiano Filippo Pozzato, vencedor da Milan-Sanremo de 2006 e com triunfos no Tour de France e no Giro d’Italia, é mais um a defender a criação de um modelo de bilhetes pagos, para garantir a sobrevivência financeira do ciclismo profissional.
Hoje, aos 44 anos e presidente da PP Sport Events, Pozzato argumenta que o esporte precisa de alternativas à dependência do financiamento público.

“Acho que é a única solução que temos para sobreviver“
“Acho que é a única solução que temos para sobreviver no futuro. Somos o único esporte que não tem um modelo com venda de ingressos”, declarou Pozzato ao canal italiano SpazioCiclismo.
A discussão sobre a cobrança de ingressos voltou a ganhar força após Jérôme Pineau, ex-diretor da equipe B&B Hotels, sugerir que os fãs deveriam pagar para assistir aos momentos decisivos das provas.
“Vamos privatizar os últimos 5km do Alpe d’Huez. Vamos cobrar ingresso, vamos ter áreas VIP, vamos criar algo para gerar receita”, afirmou Pineau no podcast Grand Plateau, da RMC.

Veneto Classic cobra 10 euros de espectadores
Pozzato, com 32 vitórias profissionais, atualmente trabalha como organizador de competições e já colocou essa ideia em prática no Veneto Classic.
Na competição italiana, vencida por Sakarias Koller Løland (Uno-X Mobility) e com chegada em Bassano del Grapa, os espectadores pagaram 10 euros para acompanhar os ciclistas enfrentando 6 vezes a icônica subida de Tisa.
“Quando apliquei esse modelo pela primeira vez, fui insultado. Disseram-me que eu estava sendo elitista. Mas para assistir a uma partida de futebol amador você também paga 15 euros, então por que não pode pagar algo para ver os melhores ciclistas do mundo?”, questionou.

“Este ano, recebemos 720 visitantes pagantes”
Segundo Pozzato, o modelo adotado no Veneto Classic vai além do simples acesso à corrida. O público pagante tem direito a entretenimento, estrutura e comodidades adicionais, criando uma experiência mais completa.
“Este ano, pela primeira vez desde que começamos a investir, recebemos 720 visitantes pagantes. O sonho é chegar a mil pessoas e começar a aumentar o preço do ingresso e a qualidade do serviço”, explicou o italiano.
Para ele, o ciclismo precisa se reinventar financeiramente: “Precisamos tentar fazer algo que tenha um sistema econômico autossuficiente, caso contrário, tudo será inútil.”

“No Giro disseram que as pessoas não estavam preparadas”
Pozzato revelou que tentou aplicar o mesmo modelo no Giro d’Italia, durante a etapa de Bassano del Grappa em 2024, mas encontrou resistência. “Disseram que as pessoas não estavam preparadas. Mas se você não começar, nunca estará preparado”, afirmou.
Ele também criticou a distribuição desigual dos direitos de transmissão televisiva, dominada por grandes organizadores como ASO e RCS. “Este é um problema exclusivo de dois organizadores, a ASO e a RCS, que ficam com grande parte dos direitos de transmissão televisiva”.
“Pessoalmente, se essas corridas estivessem em minhas mãos, eu repassaria o dinheiro dos direitos de transmissão para as equipes.”

“Se não seguirmos este modelo, todas as pequenas corridas vão acabar”
Para Pozzato, as provas menores enfrentam um futuro incerto caso não adotem novos modelos de receita. “Se não seguirmos este modelo aqui, todas as pequenas corridas italianas vão acabar”.
“O problema na Itália é que, com exceção da RCS Sport Racing, todas as outras estão fadadas a desaparecer”, alertou .
Apesar das críticas que recebe, o ex-ciclista mantém sua convicção: “Tenho certeza de que é o certo. Mas estou sozinho contra um milhão, estou indo contra a corrente. Então, me consideram estúpido por ir na direção errada”, finalizou Filippo Pozzato.