Tadej Pogacar realiza treinamentos com faixas elásticas, especialista da UAE Emirates explica: “Controle Motor”
Tadej Pogacar e os ciclistas da UAE Emirates-XRG têm sido vistos realizando diversos exercícios com faixas elásticas momentos antes das corridas. Michele Del Gallo, fisioterapeuta e osteopata da equipe, explicou a filosofia por trás desses movimentos, que vêm sendo realizados há cerca de um ano.
Mais do que buscar respostas apenas nos músculos ou nos números de potência, o especialista descreve um método que coloca o cérebro no centro do desempenho, analisando como ele recruta e coordena o corpo sob pressão.

“Muitos corredores possuem diferença de força entre uma perna e a outra”
“Graças aos testes que realizamos na UAE Emirates antes do início da temporada, percebemos que muitos corredores apresentam diferença de força entre uma perna e a outra”, inicia Del Gallo em entrevista ao Bici.Pro.
“Então, nos perguntamos sobre essa diferença. Estávamos preocupados em garantir que todos chegassem à largada com as pernas impulsionando no mesmo ritmo. No passado, costumávamos fazer treinos unilaterais, tentando fortalecer a perna mais fraca, mas sem grandes resultados…”

“Encontramos a solução através do controle motor“
Questionado sobre qual foi a solução encontrada, Del Gallo esclarece que a resposta veio do controle motor. “Encontramos a solução através do controle motor, ou seja, tentando fazer com que o cérebro recrutasse o mesmo número de fibras em ambos os lados”.
“No fim das contas, era um problema de recrutamento: de um lado, o atleta conseguia recrutar 100% das fibras musculares, enquanto na outra perna, conseguia recrutar menos. E essa era a razão da diferença de força.”
Segundo Del Gallo, não se trata apenas de fortalecer músculos, mas de ensinar o cérebro a utilizá-los de forma simétrica e eficiente.

“Desenvolvemos alguns exercícios para tentar melhorar nosso desempenho“
“Desenvolvemos alguns exercícios de controle motor para tentar melhorar nosso desempenho ao longo da corrida, embora o efeito dure um pouco mais. No entanto, a estimulação contínua é necessária para que a melhora se torne permanente”, afirma o especialista.
Del Gallo destaca que esse tipo de intervenção não se limita apenas ao dia da prova. “Isso também é feito fora da corrida, não apenas na manhã momentos antes da largada. É evidente que lembretes constantes são dados antes da corrida. Este é o melhor momento para fazê-lo.”
Ele ressalta ainda que existe uma diferença clara entre quem trabalha efetivamente o controle motor e quem utiliza as faixas elásticas apenas como aquecimento.

Aquecimento ou Ativação? “Controle Motor“
Apesar de muitas vezes ser chamado de “ativação”, Del Gallo faz questão de diferenciar os conceitos. “Chama-se ativação para garantir que todos entendam, um aquecimento muscular feito com faixas elásticas. Mas não é isso, não é um aquecimento”.
“Qual o sentido de aquecer 5 minutos antes de uma corrida que vai durar de 5 a 6 horas, onde a diferença é feita só no final? Seria uma pergunta justa, se fosse realmente esse o caso.”
Segundo ele, o impacto desse trabalho acompanha o ciclista durante toda a prova.
“Em vez disso, o trabalho no controle motor dura durante toda a corrida. Os ciclistas vão pedalar de forma diferente, gastar menos energia e chegar em uma posição melhor na linha de chegada. Esses são exercícios que fazemos no ônibus ou no hotel.”

“Quanto mais estável for o seu Core, menos força você fará para mover as alavancas“
Nem todos os atletas conseguem realizar todos os exercícios na manhã da corrida, principalmente por questões logísticas.
“São necessários 15 minutos por atleta, então não dá para fazer todos os exercícios. O ciclismo é muito sensível ao tempo. Por isso, alguns realizam no dia anterior.”
“O foco é nas pernas e no Core (conjunto de músculos profundos do abdômen, lombar, pélvis e quadris), mas na realidade o trabalho vem da parte superior do corpo. Esse é o objetivo principal”.
“Quanto mais estável for o seu Core, menos força você precisará para mover as alavancas, que podem ser seus braços ou pernas…”
Apenas um Core forte é suficiente
Por fim, o fisioterapeuta alerta para um erro comum: acreditar que apenas um core forte é suficiente.
“Exatamente. Você pode ter um abdômen forte o quanto quiser e ser o número um nesses exercícios, mas se, ao dar o comando para pisar no pedal, seu cérebro não o executar corretamente, ter um abdômen forte não lhe servirá de nada.”
A abordagem da UAE Emirates combina personalização e padronização, dependendo do momento. “O que fazemos fora da largada é bastante personalizado”.
“Na manhã da corrida, porém, seguimos um protocolo padrão, pois, caso contrário, levaria muito tempo. Criamos uma rotina de exercícios e a padronizamos para todos”, finalizou Michele Del Gallo.