Médico do WorldTour faz denúncia sobre obsessão pelo peso no ciclismo feminino: “algumas mentem, enviam fotos de balança com outra pessoa”
Apesar dos avanços na ciência do esporte e do acompanhamento médico, o peso corporal segue sendo um dos maiores tabus no ciclismo feminino profissional.
Um médico anônimo de uma equipe do WorldTour, expôs suas preocupações em entrevista à revista belga Knack, chamando atenção para práticas preocupantes de algumas atletas em busca de desempenho.

“Elas enviam fotos de refeições que não comeram”
De acordo com o médico, embora no pelotão masculino haja uma tendência de os ciclistas voltarem a comer mais adequadamente, a obsessão pelo peso ainda domina o cenário feminino. “Algumas ciclistas mentem. Enviam fotos de refeições que não comeram ou de uma balança com outra pessoa em cima dela”, relatou.
A pressão por desempenho extremo leva muitas atletas a ignorarem os riscos. “Eles não pensam nos riscos à saúde. Só o desempenho importa. ‘Eu não quero ter filhos, né?’ ou ‘Osteoporose? Isso fica para depois’, dizem eles”, revelou o médico, enfatizando que a busca por magreza pode trazer consequências graves e irreversíveis.

Heidi Van De Vijver: “Evitei cada grama de gordura”
A ex-ciclista belga Heidi Van De Vijver, ex-diretora da Fênix-Deceuninck, revelou sua própria obsessão por magreza durante sua carreira. Ela contou que pedalava com apenas 10% de gordura corporal e que, aos 30 anos, sua densidade óssea era equivalente à de uma mulher com mais de 50.
“Evitei cada grama de gordura, pesei minha comida e calculei minhas calorias com base no meu treinamento”, relembrou.
Após vencer o Tour de France (no antigo Tour Féminin, em 1993), Van De Vijver quis melhorar ainda mais, mas acabou ultrapassando os limites. “Eu ainda tinha um percentual de gordura corporal de 8%. Então, percebi que precisava ganhar mais dois a três quilos.”

Dificuldade de diálogo “uma reação muito defensiva”
Durante sua atuação como gerente de equipe até 2023, Van De Vijver também percebeu como era difícil abrir um diálogo com as atletas sobre o problema.
“Quando confrontava uma ciclista que estava muito magra, muitas vezes me deparava com uma reação muito defensiva. Aí eu ia ao médico ou ao nutricionista da equipe. Eles tinham mais chances de se comunicar com a ciclista.”
“Trabalhamos com especialistas, mas não podemos monitorar tudo”
Segundo o médico da equipe WorldTour, há uma estrutura de apoio sendo construída, mas ela encontra limites na prática.
“Trabalhamos com nutricionistas, fisioterapeutas, ginecologistas e psicólogos que enfatizam que ser extremamente magro não oferece nenhuma vantagem. Se vemos sinais preocupantes, tentamos intervir. Mas não podemos monitorar todas as refeições”, afirmou o médico.