Equipes do WorldTour confirmadas em novo projeto antidoping, Associação de Ciclistas discorda
A Agência Internacional de Testes (ITA) confirmou nesta terça-feira que 60 ciclistas, pertencentes a 4 equipes do WorldTour e um ProTeam, aceitaram participar de um estudo de desenvolvimento de um passaporte baseado em dados de potência. A iniciativa faz parte dos esforços para fortalecer o combate ao doping no ciclismo profissional.
O projeto piloto foi anunciado pela primeira vez há um ano, às vésperas do Tour de France. Na ocasião, a ITA informou que trabalhava no desenvolvimento de uma “ferramenta de monitoramento de desempenho baseada em dados de potência de ciclistas profissionais”.

Equipes do WorldTour já participam da pesquisa
No comunicado desta semana, a ITA revelou que cerca de 60 atletas das equipes Visma-Lease a Bike, Jayco-AlUla, Picnic-PostNL, Decathlon CMA CGM e Cofidis estão envolvidos no estudo, que terá duração de dois anos.
A entidade também informou que outras 3 formações já aprovaram sua entrada no programa: Uno-X Mobility, Tudor Pro Cycling Team e TotalEnergies. As conversas com mais equipes seguem em andamento. Neste momento, o projeto está restrito ao ciclismo masculino de elite.

Dados de Potência complementares ao Passaporte Biológico
O estudo está sendo conduzido em colaboração com duas instituições britânicas, a Universidade de Kent e o University College London. O objetivo é determinar se os dados de potência podem ser utilizados de maneira confiável como ferramenta complementar aos atuais métodos de controle antidoping, incluindo o Passaporte Biológico.
Segundo a ITA, o objetivo não é utilizar os números de potência para comprovar diretamente uma infração às regras antidoping.
“O objetivo não é estabelecer violações das regras antidoping por meio de dados de desempenho, mas avaliar se certos padrões ou evoluções no desempenho podem, no futuro, ajudar a orientar áreas como estratégias de testes direcionados, decisões sobre retenção de amostras, análises laboratoriais adicionais ou investigações”, diz o comunicado da ITA.
A agência explicou ainda que o foco principal do sistema será a análise dos dados coletados durante as competições, e não nos treinamentos. Além disso, o modelo foi desenvolvido para observar “a mudança no desempenho de um atleta ao longo do tempo, em vez de se concentrar apenas em um desempenho excepcional isolado”.

Compartilhamento de dados poderá se tornar obrigatório
A ITA detalhou que o projeto está dividido em duas etapas distintas. Durante o primeiro ano, os pesquisadores concentraram seus esforços na análise de dados históricos dos atletas participantes. Caso essa fase confirme as hipóteses, “o projeto avançará para uma fase de implementação piloto utilizando dados da temporada atual”.
Se a ferramenta de monitoramento for validada pela ITA e posteriormente aprovada pela União Ciclística Internacional (UCI), a entidade máxima do ciclismo poderá modificar seus regulamentos para tornar obrigatório o compartilhamento de dados de potência por todos os ciclistas profissionais masculinos.

Ciclistas demonstram resistência ao projeto
A proposta também enfrenta resistência por parte dos próprios atletas. O presidente da Associação de Ciclistas Profissionais (CPA), Adam Hansen, já se posicionou contra a criação de um passaporte baseado em dados de potência, argumentando que a medida representaria uma responsabilidade adicional para os corredores.
“A posição da CPA é muito clara: somos 100% contra isso, assim como os ciclistas”, afirmou Hansen durante participação no podcast Domestique Hotseat, em janeiro. “Ok, é só um teste. É voluntário, mas a minha pergunta é: ‘O que acontece se o ciclista não enviar os seus dados de potência?’ E eles [a ITA] respondem: ‘Ah, mas é só um teste’.”
A principal preocupação da entidade é que uma iniciativa inicialmente voluntária possa, no futuro, transformar-se numa exigência obrigatória, aumentando as obrigações dos atletas em relação ao compartilhamento de dados pessoais de desempenho.