Ex-diretor de Alberto Contador analisa Jonas Vingegaard no Giro d’Italia “não se resume a compensação financeira”
Jonas Vingegaard confirmou há poucos dias que estará no próximo Giro d’Italia. No entanto, antes mesmo do anúncio oficial circulavam rumores sobre um acordo financeiro envolvendo a Visma–Lease a Bike, o dinamarquês e a RCS, organizadora da prova italiana.
Apesar dos boatos, Giuseppe Martinelli, ex-diretor esportivo de 6 campeões do Giro, não acredita que o aspecto financeiro tenha sido determinante para a presença de Vingegaard. Em entrevista ao Bici.Pro, o experiente dirigente explicou sua visão com base na própria trajetória no ciclismo profissional.

“Na minha experiência, não se resume a compensação financeira”
“Já tive vários campeões — Pantani, Contador e Nibali — e o acordo que fazemos, na minha experiência, não se resume a compensação financeira”.
A primeira coisa que precisa ser definido, se você quer um ciclista do calibre de Vingegaard, é o percurso. Talvez com apenas um contrarrelógio e, em geral, um percurso não muito difícil, já que o Tour também estará lá”, afirmou Martinelli.
Segundo ele, esse entendimento não surge de forma repentina. “Isso significa que o diálogo entre os dois lados começa bem antes do inverno…”.

“Acho difícil entender como eles pagam um ciclista”
“O fato de Vingegaard ter feito o anúncio em 13 de janeiro é uma data formal, digamos assim. Na minha opinião, os contatos começaram bem antes. Até porque começar com o número 1, depois da vitória do ano passado, é algo importante por si só”, explicou.
Questionado se esses acordos também envolvem dinheiro, Martinelli foi direto: “Nunca fui diretor geral, mas em todos os meus anos e com tantos campeões, isso nunca me aconteceu. Acho difícil entender como eles pagariam um ciclista ou uma equipe. Existe o reembolso de despesas, mas é igual para todos”.
O tema, porém, ganhou força após declarações de Patrick Lefevere (Soudal Quick-Step) no ano passado sobre um suposto “bônus de presença” pago a Remco Evenepoel para disputar o Giro de 2023.
“Eu também já ouvi essa história. Não estou dizendo que não acredito, estou dizendo que nada parecido jamais me aconteceu. Não sei se os tempos mudaram. Não consigo imaginar que uma organização pagaria um corredor para participar, e nem acho justo”.

“Na Visma eles não se importam com contratos de 50 ou 100 mil euros“
Na visão do italiano, a relação entre grandes campeões e grandes provas é de benefício mútuo. “A participação de um grande campeão agrega prestígio ao evento, isso é verdade, mas o contrário também é verdadeiro”.
“É muito útil para a carreira de um ciclista, como será para Vingegaard, se ele vencer o Giro, para conquistar a chamada Tríplice Coroa. Na minha opinião, na Visma eles não se importam com essas coisas, sejam contratos de 50 ou 100 mil euros, eles pensam no aspecto esportivo”.
Por isso, ele acredita que a escolha de Vingegaard pelo Giro pode ser estratégica: “É por isso que digo que é mais conveniente para Vingegaard vir para o Giro, porque depois de 2 segundos lugares no Tour, uma vitória como essa seria muito importante”.

“Isso acontecia mesmo na época do Pantani”
Ao relembrar sua época como dirigente, Martinelli explicou que essas conversas já existiam, embora fossem menos detalhadas. “Já conversávamos sobre isso no outono, no final da temporada; nos davam o esboço geral do percurso, mas nada além disso”.
Ele recordou ainda situações do passado: “Mesmo na época de Pantani, quando Castellano era o diretor, talvez lhe tenham pedido para não incluir 3 contrarrelógios. Mas são coisas que sempre acontecem, porque os campeões, quando estão lá, precisam de um pouco de tranquilidade”.

Hoje, segundo ele, o processo parece ainda mais antecipado e abrangente. “Acho que agora eles estão pensando nisso mais cedo, até mesmo de um ano para o outro”.
“Talvez Vingegaard tenha decidido disputar o Giro na temporada passada, depois do Tour. Isso significa que as equipes não estão olhando apenas para o percurso, mas para o pacote completo, incluindo os desejos do ciclista. Como deve ser, especialmente com campeões desse calibre”, finalizou Giuseppe Martinelli.