“Portugal é conhecida como faroeste do doping no ciclismo”, ciclista da EFAPEL lança polêmica no ciclismo português; assista o vídeo
O ciclista americano Keegan Swirbul, que deixará o ciclismo profissional ao final da temporada, depois de 4 anos defendendo a equipe continental EFAPEL, lançou polêmica sobre a presença do doping no pelotão em 2026.
Em um longo vídeo de 24 minutos publicado no YouTube e intitulado “Existe doping no ciclismo profissional/Minhas histórias”, o ciclista vencedor de uma etapa e a Classificação Geral do GP Douro Internacional fez uma série de afirmações polêmicas baseadas, segundo ele, em experiências vividas durante sua carreira, especialmente em Portugal.
“Corro há 4 anos num lugar onde o doping é uma realidade, infelizmente, que é Portugal. Eu sei das coisas, galera. Tenho algumas histórias para vocês e vamos falar sobre tudo isso”.
“Quais são as minhas suspeitas? O que esses caras estão fazendo? Existem alguns casos de pessoas que eu literalmente vi com meus próprios olhos se dopando nas corridas que participei, e vamos falar exatamente como eu sei o que eles estão fazendo e o resto”.
“O doping sempre foi o principal assunto na conversa do jantar”
Segundo Swirbul, as suspeitas relacionadas ao uso de substâncias proibidas sempre fizeram parte das conversas entre ciclistas depois das competições.
“Em todas as equipes de ciclismo onde eu corri na minha carreira inteira, o doping sempre foi o principal assunto na conversa do jantar pós-corrida”.
“Ah, esse ciclista, meu deus, ele voou naquela subida. Meu deus, você viu? Fulano atacou muito forte, ele tem que estar fazendo algo. Esses caras estão voando nessa corrida, eles estão fazendo algo”.
O americano também citou a situação envolvendo Jonas Vingegaard e Tadej Pogačar, questionando o que seria comentado entre os corredores depois de uma diferença expressiva de desempenho.
“O que o Jonas está pensando, depois de dizer: ‘Ah, sim, estou definitivamente melhor do que nunca. Meus números estão melhores do que nunca. Estou na melhor forma da minha vida.’ E aí ele leva uma surra do Tadej”.
“Sabe, o que eles estão dizendo na mesa do jantar depois disso? Sempre me perguntei. Aposto que eles falam a mesma coisa que os caras da minha equipe dizem: ‘Meu deus, esses caras são muito duvidosos, muito suspeitos.’”
“Portugal é conhecida como faroeste do doping no ciclismo“
Swirbul destacou que passou quatro anos competindo em Portugal e classificou o país como um ambiente particularmente problemático quando o assunto é doping no ciclismo.
“Corro em Portugal há 4 anos. Para quem não sabe, Portugal tem alguns dos escândalos de doping mais intensos da história. É literalmente conhecida como o faroeste do doping no ciclismo. Você pode fazer o que quiser em Portugal. Equipes dopam. Esses caras se dopam. Eu sei que esses caras se dopam.”
“Na Volta a Portugal ele parecia um cadáver”
O ciclista afirmou ainda que utiliza dois critérios principais para levantar suspeitas sobre possíveis casos de doping: mudanças muito rápidas de peso e oscilações incomuns no desempenho ao longo da temporada.
“A primeira é a perda rápida de peso. Vamos dar um exemplo aqui. Um cara chamado António Carvalho. Quem é ele? Um dopado lendário que se aposentou ano passado com uns 30 e poucos anos.”
De acordo com Swirbul, António Carvalho apresentava um comportamento físico que chamava sua atenção durante a temporada.
“Ele sempre chegava muito pesado na primavera e ficava para trás em todas as subidas. Mas assim que a Volta a Portugal se aproximava, a prova mais importante para esses caras, ele literalmente parecia um cadáver”, afirma Swirbul.
O americano relacionou essa transformação ao possível uso de corticosteroides.
“O que ele estava usando? Corticosteroides. É possível usá-los legalmente com uma AUT (Autorização de Uso Terapêutico)… Isso garante uma perda de peso incrivelmente rápida, a manutenção de toda a massa muscular, uma enorme quantidade de energia e uma recuperação extremamente rápida sem perda de força. Suga toda a gordura do corpo.”
“Chega a Volta a Portugal e ele está pedalando a 6,4 W/KG”
Além da perda de peso, Swirbul apontou a consistência do desempenho como outro fator que, em sua opinião, merece atenção.
“A segunda coisa que sempre observo para saber se alguém está se dopando é a consistência do seu nível de desempenho. Se um ciclista apresenta picos e quedas bizarras ao longo da temporada, isso é um sinal muito ruim”, continua ele.
O americano exemplificou a diferença de rendimento que considera suspeita:
“Em abril, esse cara está pedalando a 5,8 watts por quilo, enquanto meu FTP é em torno de 6,0. Mas aí chega a Volta a Portugal e, de repente, ele está pedalando no seu limite de 6,4 watts por quilo ou mais. Essa é uma diferença absurdamente grande em poucos meses.”
O caso de José Neves
Na sequência, Swirbul abordou a maneira como casos de doping são vistos em Portugal e citou José Neves (GI Group Holding – Simoldes – UDO) como outro exemplo que, segundo ele, provocou indignação entre alguns ciclistas.
“Um caso que realmente me deixou furioso: um cara que foi suspenso por quatro anos por causa de EPO e bolsas de sangue na geladeira terminou em 4º lugar na Volta a Portugal este ano”, diz ele, referindo-se a José Neves.
“Isso realmente me incomoda, e a outros ciclistas, que um cara como esse volte e que uma equipe portuguesa simplesmente o contrate novamente.”
“Por quê? Vocês estão prejudicando seus próprios jovens talentos, que já estão tão afetados por essas questões. Os jovens ciclistas portugueses não são aceitos por outras equipes simplesmente por serem portugueses”, questiona o americano.
O episódio envolvendo Frederico Figueiredo
Outro caso mencionado por Swirbul foi o de Frederico Figueiredo (aposentado desde 2024), a quem descreveu como um dos grandes escaladores do ciclismo português.
“Frederico Figueiredo, um escalador absolutamente mítico. Outro cara na lista das melhores performances de escalada de todos os tempos, literalmente no mesmo nível de Lance Armstrong, Pantani, Pogačar, Vingegaard.”
“No meio da temporada, ele sumiu um pouco. Sofreu uma queda e deveria voltar a competir, mas todos pensaram: ‘O que está acontecendo com o Frederico?’ (…) E aí começam os rumores de que ele está com problemas com o passaporte biológico.”.
“Frederico retorna para a Volta a Portugal… Eles vencem a Volta naquele ano, e Frederico teve um papel fundamental na ação decisiva. Algumas semanas depois, eles vencem a segunda maior corrida de Portugal, o Grande Prêmio Júnior. E adivinhem quem vence essa corrida? Frederico Figueiredo”, complementa o americano.
O americano afirmou que, semanas depois, surgiu a notícia de uma violação relacionada ao passaporte biológico.
“Semanas depois do fim da temporada, você olha o Twitter: bum, passaporte biológico positivo para Frederico, suspenso por 4 anos. Mais tarde, descobrimos que ele já havia sido notificado um ano antes de que tinha sido pego e que seu passaporte biológico apresentava valores anormais.”
Críticas à equipe
Swirbul também criticou a postura que, segundo seu relato, teria sido adotada pela Sabgal / Anicolor durante a investigação.
“O que a maioria das equipes faz quando recebe uma notificação como essa: imediatamente tira o ciclista das corridas, corta o pagamento dele e o expulsa da equipe”.
“Fim da história. Lógico, não é? Esta equipe (Sabgal / Anicolor, ed.) simplesmente deixou seu ciclista continuar competindo por um ano inteiro — e ganhando corridas, veja bem! — enquanto a investigação de doping contra ele estava em andamento. Pense em quão extremamente corrupto você precisa ser para permitir algo assim”, suspira Swirbul.
“É possível que Pogacar esteja fazendo algo”
Apesar das críticas e suspeitas levantadas ao longo do vídeo, Keegan Swirbul fez uma distinção importante ao falar sobre Tadej Pogačar. Para ele, o atual nível do esloveno não seria explicado pelo modelo clássico de doping associado a grandes escândalos do passado.
“Pogačar se dopa? Não acho que Pogačar se dope da maneira que todos imaginamos — aquele doping clássico de Lance Armstrong com bolsas de sangue, seringas e coisas do tipo. Não acho. Ele é simplesmente consistente demais para isso; ele é testado uma quantidade absurda de vezes, e seu nível se mantém o ano todo.”
Por outro lado, o americano não descartou a possibilidade de existirem métodos ainda desconhecidos ou que não estejam atualmente no radar das autoridades antidoping.
“É possível que Pogačar e outros caras estejam fazendo algo que simplesmente ainda não está no nosso radar? Muito possível. As pessoas estão falando sobre doping genético (…) ou doping mitocondrial. Certamente haverá coisas sobre as quais não ouviremos falar até os próximos anos, mas que ainda não foram proibidas.”
Swirbul afirmou que, caso essas novas tecnologias estejam sendo utilizadas, os atletas que tiverem acesso antecipado a elas estariam à frente das próprias autoridades antidoping.
“E se eles fazem: respeito a eles, porque estão à frente da ciência médica e têm os meios, o conhecimento e a ciência para fazer isso antes mesmo de estar no radar das agências antidoping. Isso é doping, então? Não, formalmente não. Meu palpite é que, na verdade, isso é um problema muito menor no WorldTour do que todos nós acreditamos”, conclui Swirbul.