João Almeida fala francamente sobre assuntos polêmicos do ciclismo “falta respeito no pelotão”, ouça o áudio
João Almeida (UAE Emirates) falou sem filtros durante sua participação no podcast da Sigma Sports, apresentado pelo britânico Matt Stephens.
O ciclista de Caldas da Rainha abordou temas sensíveis do ciclismo profissional, desde a obsessão dos ciclistas com o peso, passando por sua característica estratégia durante os ataques dos adversários.
Para finalizar, além de comentar o desentendimento que teve com Tom Pidcock na última Vuelta a España, como destacou o Giro do Ciclismo recentemente, ele falou sobre a falta de segurança no pelotão profissional.

“Fui para a Vuelta com um quilo, um quilo e meio acima do meu peso“
João iniciou a entrevista sendo perguntado sobre um polêmico assunto no ciclismo profissional: a pressão que os ciclistas sofrem em torno do peso ideal. João Almeida foi direto.
“Sim, exatamente. Pessoalmente, eu não gosto de sentir fome, principalmente o tempo todo”, afirmou no podcast, sem esconder um sorriso.
“Claro que preciso levar minha dieta a sério. Mas, ao mesmo tempo, não é o fim do mundo se você estiver alguns gramas acima do peso, certo?”, admite João Almeida.
O português explicou que sua filosofia deu resultados na Vuelta a España. “Fui para a Vuelta com, tipo, um quilo, um quilo e meio acima do meu peso e mesmo assim consegui vencer no Angliru”, destacou.
“Acho que é um bom exemplo, uma das subidas mais íngremes onde o peso é super importante. Mas se você não tiver potência, não vai conseguir avançar.”

“Não acompanho os ataques, eles vão morrer 2 km à minha frente”
A maneira como João Almeida administra seus esforços nas subidas também foi tema da conversa. Conhecido por perder alguns segundos no início dos ataques e acelerar depois, ele explicou que se trata de um cálculo. “No fim das contas, é só ciência, a ciência por trás do esporte, certo?”, disse.
“Com o teste de lactato e também com a sua percepção, você consegue saber quase exatamente quantos watts pode exercer nos pedais por determinado período de tempo.”
João revela que antes essa diferença de ritmo não era intencional, mas hoje se tornou parte de sua estratégia. “Hoje em dia, às vezes eu consigo acompanhar, mas simplesmente não acompanho porque não quero, porque sei que eles vão morrer uns 2 km à minha frente.”

Ele admite até certo jogo psicológico: “Às vezes, na minha cabeça eu sei, tipo, ‘Eu vou te pegar. Tenho quase certeza de que vou te pegar.'”
“Claro, se você estiver falando de um Tadej ou Jonas, Remco, esses caras, obviamente, não tento fazer isso. Mas em outros casos, eu sei que vou voltar. Então, estou apenas guardando a bala para mais tarde.”

“Falta respeito no pelotão, as pessoas não se importam se caírem”
Se Almeida costuma ser cauteloso ao falar de desempenho, o mesmo não se aplica à segurança. Suas críticas foram diretas: “As bicicletas estão mais rápidas do que nunca. O estresse no pelotão também tem sido bastante alto. Acredito que isso se deve principalmente à atitude dos ciclistas.”
Ele vai além: “Acho que falta respeito no pelotão. As pessoas não se importam muito se caírem, não pensam muito na segurança. É o que eu sinto.”

“Os acidentes são mais consequência da atitude dos ciclistas do que da organização”
Segundo João, os acidentes têm muito mais relação com comportamentos individuais do que com fatores externos: “Na minha opinião, os acidentes são mais consequência da atitude dos ciclistas do que da organização.”
O português recorreu até a uma comparação com sua experiência em carros de alta velocidade: “Acho que bicicletas mais rápidas não significam muita coisa. Eu gosto de carros. Costumo ir a pistas de corrida. Chego a andar a 300 km/h. E não bato”.
“Tenho freios, posso frear quando quiser, sabe? Então, se você anda a 70 km/h numa bicicleta de rua, você só tenta frear um pouco antes, entende? E aí entra o bom senso.”
“É importante que alguns ciclistas façam um curso de habilidades”
João Almeida chega a afirmar que parte do pelotão carece de preparo técnico: “Acho que hoje em dia é mais importante que alguns ciclistas façam um curso, pratiquem curvas, descidas, para saberem o que estão fazendo. Porque se você vai mais rápido, precisa ter mais habilidade também.”
Para ele, a chave está no respeito mútuo e no bom senso: “Eu não quero causar um acidente para ninguém, nem para mim mesmo, então talvez eu freie um pouco antes, só por segurança. Aí posso acelerar na subida ou algo assim. Mas essa não é a mentalidade no momento”, finalizou João Almeida.