“Não estamos falando de Miguel Indurain, Tadej Pogacar é o oposto” lenda do ciclismo belga alerta sobre o desgaste do campeão mundial
Tadej Pogacar (UAE Emirates)foi o grande protagonista das 2 últimas temporadas do ciclismo mundial, protagonizando demonstrações de superioridade em quase todas as provas mais importantes do calendário.
Além do desempenho esportivo, houve um conjunto de obrigações que acompanharam o status de ser o Campeão Mundial, um tema abordado por Philippe Gilbert, campeão mundial em 2012, em entrevista ao jornal belga Le Soir.

“Talvez seja justamente esse aspecto que o esgota“
Gilbert destacou tudo o que envolve vestir a camisa arco-íris: compromissos com patrocinadores, presenças em eventos da equipe, viagens constantes e a infinidade de pedidos por fotos, quase sempre atendidos com um sorriso pelo esloveno.
“Talvez seja justamente esse aspecto que o esgota. Fiquei surpreso ao vê-lo neste outono em tantos lugares diferentes. Às vezes me pergunto como ele consegue descansar e se concentrar nos treinos”, afirmou Gilbert.

“De outubro a dezembro, um ciclista profissional precisa de descanso e silêncio”
Tadej Pogacar encerrou sua temporada em 11 de outubro e só retornou ao treinamento em dezembro, logo após um dia dedicado a testes de equipamentos nos paralelepípedos da Paris-Roubaix. Entretanto, antes disso, ele marcou presença em inúmeros eventos públicos.
“Ele esteve presente em muitas provas. É sempre muito generoso, doa muito de si, doa equipamentos para leilões e assim por diante. Mas de meados de outubro ao início de dezembro, um ciclista profissional precisa de descanso e silêncio”, argumentou o belga.
O próprio Pogacar já reconheceu na última temporada o peso mental que isso pode acarretar, chegando a vestir uma camisa com os dizeres “não perturbe”, além de uma imagem pedindo também para não ser fotografado.

“Não estamos falando de Miguel Indurain, Pogacar é o oposto“
Philippe Gilbert também se aprofundou no aspecto psicológico de ser Campeão Mundial, especialmente no contexto do Tour de France.
Ele relembrou a 16ª etapa, em direção ao Mont Ventoux, quando Pogacar bateu o joelho no guidão (guiador em Portugal) e sofreu uma lesão leve. Assim, sua última semana na prova foi considerada atipicamente conservadora.
“A equipe disse a ele: ‘Pare de atacar, apenas siga, apenas siga, não estamos mais pedindo que você vença etapas’. Ao impor isso a Tadej, você o força a correr contra seus instintos naturais. Ele é o tipo de ciclista para quem você deve dizer: ‘Vai com tudo, aproveite’”.
“Não estamos falando de Miguel Indurain. Pogacar é o oposto. Ele precisa das Etapas Rainhas, dos Contrarrelógios, talvez de todas as camisas para fazer história”, afirmou o belga, lembrando que o espanhol Pentacampeão Mundial utilizava os contrarrelógios como arma e adotava uma postura mais conservadora nas demais etapas.

“Eddy Merckx nunca parou, e Tadej também não, ele arriscou. Ele adora isso”
Mesmo com a Classificação Geral assegurada, ao contrário do que Philippe Gilbert analisou, Pogacar voltou a atacar na última etapa do Tour, tentando vencer em Paris mesmo com o piso escorregadio, vestindo a camisa amarela.
“Eddy Merckx nunca parou, e Tadej também não. Os paralelepípedos estavam molhados e escorregadios, todos os ingredientes estavam lá para uma queda e para colocar em risco a vitória geral, mas ele arriscou. Ele adora isso”, concluiu PhiliGilbert.
