“Tadej Pogacar era um pouco gordinho, pesava 4 kg a mais” diretor da UAE Emirates fala sobre o desenvolvimento do Campeão Mundial
A disputa entre Tadej Pogacar e Jonas Vingegaard tornou-se o eixo central do Tour de France contemporâneo. Personalidades distintas, a mesma obsessão pela vitória e um histórico que hoje aponta 4 títulos para o esloveno Campeão Mundial e 2 para o dinamarquês.
Para Mauro Gianetti, histórico diretor da UAE Emirates-XRG, o aspecto mais significativo não está apenas nos números, mas na forma como esse duelo redefiniu a mentalidade de trabalho de Pogacar. Em entrevista ao Wielerflits, o dirigente destacou como a rivalidade elevou o nível do esloveno.

O primeiro contato e uma impressão imediata
Gianetti recorda com clareza o primeiro encontro com o jovem Tadej Pogacar, ainda com 19 anos em 2018, após a vitória no Tour de l’Avenir, conquistada sem o apoio de uma equipe estruturada.
“Depois que ele venceu o Tour de l’Avenir em 2018 sem o apoio de uma equipe, encontrei-o pela 1ª vez em nosso centro de treinamento em Milão, onde assinamos seu primeiro contrato”, contou Gianetti.
“Você percebia imediatamente que aquele garoto tinha carisma. Ele era mente aberta e incrivelmente ávido para aprender o mais rápido possível. Ele tinha apenas 19 anos, mas sabia exatamente o que queria.”

“Tadej Pogacar era um pouco gordinho, pesava pelo menos 4 kg a mais“
O que mais chamava a atenção, segundo o suíço, era a serenidade do jovem ciclista. “Naquele ano, também conversamos com caras como Brandon McNulty, Mikkel Bjerg, João Almeida e Marc Hirschi, que também nasceram em 1998”, lembrou.
“Tadej já era muito mais maduro. Muito mais calmo, não precisou de muitas palavras. Ele ouviu atentamente e imediatamente compreendeu a situação como um todo. Perguntou o que precisava fazer para melhorar. Percebi imediatamente que se tratava de alguém especial.”
“Naquele momento, ele ainda era um pouco gordinho. Pesava pelo menos 4 kg a mais do que agora”, mas nas subidas longas, ele vencia os melhores escaladores da sua idade. Tínhamos expectativas, mas eu jamais imaginaria que Tadej se tornaria o ciclista que é hoje. Ninguém esperava.” revelou Gianetti.

“Tadej teria vencido aquela Vuelta a España em vez de Primoz Roglic“
Para Gianetti, a convicção definitiva surgiu na 20ª etapa da Vuelta a España de 2019, quando Pogacar atacou de longe e deixou os rivais sem reação. “Eles realmente não chegaram nem a se aproximar”, recordou.
“Acontece que a Movistar (trabalhando para Alejandro Valveerde), acelerou ao máximo, caso contrário, Tadej teria vencido aquela Vuelta em vez de Primoz Roglic.”

“Ele não comprou uma Ferrari nova“
Pouco depois, veio o momento que apresentou Pogacar ao mundo: La Planche des Belles Filles, no Tour de 2020. “Aquele dia significa muito para a sua carreira”, afirmou Gianetti.
“Ele acreditava que era possível vencer o Tour. Não havia obrigação. Nós vimos a oportunidade. A obrigação traz estresse negativo, acreditar nas oportunidades dá energia positiva.”
Mesmo com a conquista histórica, o sucesso não alterou a essência do ciclista. “Não o mudou”, garantiu Gianetti.
“Não foi como se ele de repente se sentisse o rei do mundo. Ele não comprou uma Ferrari nova. A primeira coisa que ele pensou foi que queria provar no ano seguinte que merecia a vitória no Tour.”

As derrotas para Jonas Vingegaard
Se a vitória não o transformou, as derrotas tiveram um efeito ainda mais profundo. Questionado se perder 2 Tours para Vingegaard o fortaleceu, Gianetti foi categórico: “Tenho certeza absoluta disso.”
“A 2ª vitória dele no Tour, em 2021, foi muito fácil. Ele não precisou se esforçar mais, não precisou melhorar”.
“Com as vitórias de Jonas Vingegaard (2022 e 2023), ele foi obrigado a se dedicar um pouco mais em todos os aspectos. Ele se tornou muito mais sério na sua abordagem. Mas isso é lógico. Ele está colhendo os frutos agora.”

“Naquele dia, ele me mostrou que não é apenas o melhor ciclista do mundo”
Gianetti também destacou um dos dias mais duros e simbólicos da carreira de Pogačar: a quebra no Col de la Loze, em 2023, que encerrou o sonho do 3º título no Tour de France.
“Honestamente? Para mim, aquele foi o melhor dia da carreira dele. Um campeão como ele, completamente exausto, cruzando a linha de chegada 7 minutos atrás do líder, tendo perdido tudo…”
“90% dos outros ciclistas teriam desistido naquele dia e se entregado por causa da doença. Teriam abandonado o Tour. Ele poderia ter desistido. Poderia ter chorado. Poderia ter demonstrado que não aguentava mais.”

“Naquele dia, ele me mostrou que não é apenas o melhor ciclista, mas também o quão especial ele é como pessoa. Ele aceitou a derrota e quis lutar por uma redenção naquele Tour”.
“Teve a coragem de perseverar e não escolher o caminho mais fácil. Três dias depois, ele venceu a etapa nos Vosges e garantiu o 2º lugar na classificação geral. Parabéns!”, concluiu Mauro Gianetti.